Read A Boca na Cinza by Rui Nunes Online

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Há sempre uma morte que nos aguarda à nossa frente, um gesto morto, uma pessoa morta, um livro lido, uma palavra apagada, tenho de lutar todos os dias contra essas mortes, nem a memória me é consolo, de vez em quando perguntam-me: estás com pena de ti próprio? e eu respondo-lhes: e então? não me lembro de ter dormido com uma mulher, não me lembro de ter dormido com um homeHá sempre uma morte que nos aguarda à nossa frente, um gesto morto, uma pessoa morta, um livro lido, uma palavra apagada, tenho de lutar todos os dias contra essas mortes, nem a memória me é consolo, de vez em quando perguntam-me: estás com pena de ti próprio? e eu respondo-lhes: e então? não me lembro de ter dormido com uma mulher, não me lembro de ter dormido com um homem, lembro-me de serem enormes as camas onde dormi, nunca vi um corpo nu, real, à minha frente, a única pele que toco é a minha, as pessoas nem sequer me apertam a mão, dizem-me: como estás? e passam-me ao lado, já estive +ara comprar uma boneca insuflável.- são enormes as bonecas, mano,- não há bonecas para anões....

Title : A Boca na Cinza
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ISBN : 9789727087204
Format Type : Paperback
Number of Pages : 132 Pages
Status : Available For Download
Last checked : 21 Minutes ago!

A Boca na Cinza Reviews

  • Joana
    2019-05-12 01:55

    A razão pela qual não dou cinco estrelas a este livro é muito clara, para mim: Rui Nunes recusa tudo o que são convenções literárias e, nesta minha primeira leitura, isso criou-me alguma estranheza afectando o meu ritmo de leitura. Não coloco de parte, por esse motivo, um dia retomar a leitura deste livro tão cheio de entrelinhas e dar as merecidas cinco estrelas. A linguagem, construção narrativa e próprias personagens são estranhas, pouco ou nada convencionais e, a meu ver, interessantes, inovadoras e curiosas. Um livro que me agrada por ilustrar uma certa ruptura e diferenciação. Pega nas regras literárias e desconstrói-as inteiramente e, para mim, isso terá sempre um quê de belo e de louco.Neste romance o escritor mostra-nos um mundo fragmentado, onde os seres que nos são descritos se encontram reduzidos a um mundo degradado e onde se encontram de mãos dadas à sua condição de pobreza (alguma física e maioritariamente existencial). É-nos contada a história de dois irmãos anões que vivem juntos na mesma casa e, por isso, enquanto leitores temos uma visão priveligiada daquilo que é a intimidade entre dois seres afectados e dilacerados pela solidão, doença e melancolia. A escrita de Rui Nunes, e daí o brilhantismo deste livro, ilustra este universo distópico, desconstruído e negro sendo uma antítese perfeita do lirismo. Um livro cheio de crueza, de fragmentação (ao nível temático e formal) e dotado de uma certa "inquietação"!" a dor é abrir os olhos para as paredes vazias do quarto, é a respiração crepitante, é o peito em quilha a subir e a descer, quando estou deitada, num movimento que é a minha vida (...)"

  • Cloud
    2019-04-22 03:55

    " - as pessoas falam continuamente, e essa fala sem interrupção horroriza-me, a fluência que é a certeza das suas vidas, e do mundo, e de deus, eis-me sem lhes poder responder, porque só tenho a imprecisão, o tenteio, o tacteio, faltam-me palavras, as frases param a meio, preciso de respirar, preciso de saber com que movimentos se faz um rosto,o teuqualquer,a palavra mais simples exige de mim todo o meu corpo,cada palavra recompõe o meu corpo,canso-me tanto(...)""o mundo, de vez em quando, é-me indiferente, são volumes e espaços que o meu corpo não compreende, aleijo-me, tenho braços e pernas cheios de nódoas negras, arranhões nas mãos, hematomas, lambo as minhas feridas, como antes se dizia que um cão lambe as suas feridas, sei o gosto das crostas, do sangue, dos coágulos, da pele tensa sobre a dor, se houvesse deus, eu não seria mais do que um animal a passar a língua pelos joelhos, a sujidade que se acumula neles, porque estão perto da rua, do alcatrão, da terra, dos passeios, sabe-me sempre a pó a minha pele, e em pó me hei-de tornar, ou num rolo de cactos secos, no deserto dos filmes, que se move pelas ruas vazias até parar contra a parede, e um rosto surgir mudo, como se o silêncio o abrigasse, ou fosse o tecto da casa, ou a parede que desce num movimento de braços,- a harmonia apaga-nos, apaga, afaga, isto é, lima-nos até sermos uma nota constante, uma raiva que outros lábios possam dizer, (...) "